domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Brasil tem Meta

Hoje, já não parece uma meta tão distante o Brasil se tornar país economicamente rico e socialmente justo, mas há grandes desafios pela frente, como educação de qualidade

Há 90 anos, o Brasil era um país oligárquico, em que a questão social não tinha qualquer relevância aos olhos do poder público, que a tratava como questão de polícia.
O país vivia à sombra da herança histórica da escravidão, do preconceito contra a mulher e da exclusão social, o que limitou, por muitas décadas, seu pleno desenvolvimento.
Mesmo quando os grandes planos de desenvolvimento foram desenhados, a questão social continuou como apêndice e a educação não conquistou lugar estratégico. Avançamos apenas nas décadas recentes, quando a sociedade decidiu firmar o social como prioridade.
Contudo, o Brasil ainda é um país contraditório. Persistem graves disparidades regionais e de renda. Setores pouco desenvolvidos coexistem com atividades econômicas caracterizadas por enorme sofisticação tecnológica. Mas os ganhos econômicos e sociais dos últimos anos estão permitindo uma renovada confiança no futuro.
Enorme janela de oportunidade se abre para o Brasil. Já não parece uma meta tão distante tornar-se um país economicamente rico e socialmente justo. Mas existem ainda gigantescos desafios pela frente. E o principal, na sociedade moderna, é o desafio da educação de qualidade, da democratização do conhecimento e do desenvolvimento com respeito ao meio ambiente.
Ao longo do século 21, todas as formas de distribuição do conhecimento serão ainda mais complexas e rápidas do que hoje.
Como a tecnologia irá modificar o espaço físico das escolas? Quais serão as ferramentas à disposição dos estudantes? Como será a relação professor-aluno? São questões sem respostas claras.
Tenho certeza, no entanto, de que a figura-chave será a do educador, o formador do cidadão da era do conhecimento.
Priorizar a educação implica consolidar valores universais de democracia, de liberdade e de tolerância, garantindo oportunidade para todos. Trata-se de uma construção social, de um pacto pelo futuro, em que o conhecimento é e será o fator decisivo.
Existe uma relação direta entre a capacidade de uma sociedade processar informações complexas e sua capacidade de produzir inovação e gerar riqueza, qualificando sua relação com as demais nações.
No presente e no futuro, a geração de riqueza não poderá ser pautada pela visão de curto prazo e pelo consumo desenfreado dos recursos naturais. O uso inteligente da água e das terras agriculturáveis, o respeito ao meio ambiente e o investimento em fontes de energia renováveis devem ser condições intrínsecas do nosso crescimento econômico. O desenvolvimento sustentável será um diferencial na relação do Brasil com o mundo.
Noventa anos atrás, erramos como governantes e falhamos como nação.
Estamos fazendo as escolhas certas: o Brasil combina a redução efetiva das desigualdades sociais com sua inserção como uma potência ambiental, econômica e cultural. Um país capaz de escolher seu rumo e de construir seu futuro com o esforço e o talento de todos os seus cidadãos.
DILMA ROUSSEFF é a presidente da República.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Lula e sua herança

Bem-vindo de volta, companheiro Lula

O aniversário de 31 anos do PT marcou a volta do companheiro Lula à Presidência de Honra do partido, em ato político realizado na quinta-feira (10) à noite no auditório do Sindicato dos Bancários do DF. Um momento histórico que reproduzo no vídeo abaixo.

O sentido histórico do governo Lula

Reproduzo abaixo artigo do professor Wanderley Guilherme dos Santos publicado na revista Carta Capital.
O balanço de Lula contraria os tradicionais compassos das transações correntes, balança comercial, taxas de câmbio e rubricas aparentadas. São números relevantes, sem dúvida, mas, tratados com interessada subserviência, servem como disfarces da realidade – ora apresentando como diferentes entidades semelhantes, ora pretendendo ser iguais a água e a vinho. Uma variação anual positiva de 6% do PIB, por exemplo, não quer dizer que o número total de pares de sapatos produzidos no ano foi 6% superior ao total produzido nos 12 meses anteriores, ou do total de geladeiras, aspirinas, preservativos e tudo mais. Alguns números reais corresponderiam a bem mais do que à porcentagem registrada, outros a bem menos, e ainda outros a exatos 6%, sem mencionar os números novidadeiros. Uns pelos outros é que desembocam nessa média. Trivial, mas fácil de esquecer e dócil a interpretações marotas.



O economista Fernando Augusto Mansor de Mattos, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), calculou a taxa de variação do produto interno bruto brasileiro dividido pela população (PIB/per capita) nos últimos 60 anos, subdividindo o período por 14 mandatos presidenciais, acabados ou interrompidos, ditatoriais ou eleitos – de Getúlio Vargas/Café Filho a Lula I e II. Vista de longe,- parece que a história econômica do País reprisa sequências de picos e vales de crescimento, variando não mais do que o maior ou menor intervalo de tempo entre uma escalada e uma queda. Uma rotina, quase. E nada melhor que uma rotina para sugerir aos candidatos a cientistas da economia a existência de uma “lei da natureza”. Daí a se imaginar que abundância e escassez caem do céu e que todas as abundâncias se parecem não toma além de dois passos.


Mais um passo e alcançamos a tese rústica de que o governo Lula representou um prolongamento de governos anteriores, no que estes apresentaram de positivo, acrescido de bonançosos ventos internacionais. Virtude e acaso encarnados em sujeitos distintos, operando em tempos sucessivos, a tese excitaria o falecido Maquiavel. Pace Niccolò, a história não é bem essa.


O crescimento de 4,9%, em média, dos prometidos 50 anos em 5 do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956-1960), único presidente progressista eleito a concluir mandato antes do golpe militar de 1964, e o melhor a partir de então entre os de inspiração liberal, em nada se parece aos 4,1% do Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, de Ernesto Geisel, cerca de 20 anos depois (1974-1978). Mais 30 anos passados, os modestos 3,5 de Lula II, em novo governo progressista legitimamente eleito, embora apontando ligeiro declive diante do pico JK, representaram a mais espetacular ruptura das últimas oito décadas da República. Mas a interpretação reduzida a números não ultrapassa o registro de que houve 0,8 ponto porcentual de diferença entre o PIB per capita de JK e o de Geisel, e que o de Lula ficou atrás de ambos (o modus faciendi democrático desaparece nos números). Em outras palavras, quem só vê porcentagens significantes não enxerga o conteúdo sendo significado, ignorando que, na economia, importante é o que está dentro dela, estúpido! – diriam os suecos.

Por exemplo: dentro da taxa média de crescimento do PIB/per capita de Lula II faltam números satisfatórios de aeroportos, rodovias, ferrovias e portos, justamente o que existe em abundância embutido nas taxas dos anos JK. Os “50 anos” recuperados “em 5” de Juscelino chegaram por via aérea ou recebidos em terminais rodoviários construídos às dezenas, acompanhando o ritmo de conclusão das estradas interestaduais planejadas pelos técnicos do então BNDE.- Nada a lembrar o irritante congestionamento atual de aeroportos e estradas, invadidos por passageiros de primeira ou segunda viagem e por motoristas calouros em fins de semana fora da cidade onde moram. Sem esquecer o crescente tempo de espera para desembarque das mercadorias importadas nos portos nacionais. Muitas das quais enviadas da China, com a qual – ninguém podia imaginar – praticamente não falávamos nos anos 50 do século XX. Enfim, os itens em atraso na composição do PIB de Lula I e II fizeram a glória do desfile do PIB estilo JK nos sorridentes anos dourados de meados do século passado. É bem verdade que nem todos sorriam, faltavam os dentes, mas isso fica para depois.


Segundo os conservadores, ou bem o Brasil crescia ou evitava a inflação. Escolha difícil, à falta de terceira opção, e JK, apoiado pelo País inteiro, escolheu crescer, enquanto outros, antes e depois dele, preferiram a estagnação. Perfilhou, inclusive, o desafio de transferir a capital da cidade do Rio de Janeiro para o Planalto Central. (Corre a lenda de que o escritor carioca, católico e engenheiro por formação Gustavo Corção – 1896-1978 –, autor do célebre romance Lições de Abismo, apostou contra a viabilidade civilizatória de Brasília, -assegurando que ela não teria condições de se comunicar nem telefonicamente com o resto do Brasil. Perdeu a aposta, é claro, e provavelmente teria apostado também contra a invenção do celular, jamais imaginando que tal artefato, se existisse, viesse a estar ao alcance de mais da metade da população brasileira em 2010 – cerca de 100 milhões de assinantes – quatro vezes superior ao número de celulares em circulação em 2003. Esta referência parentética destinou-se a ilustrar, com um item que de conspícuo transformou-se em básico, a rápida evolução recente do consumo em todas as rubricas típicas, como fogão, geladeira, televisão etc., consignadas pelos balanços usuais.)


Pois a tese da improbabilidade de crescimento econômico sem inflação era outro dos dogmas do período JK, adotado por todos os governos posteriores, o mesmo que se brandia à véspera do primeiro mandato de Lula. A ver as experiências históricas.


As entranhas do PIB juscelinista deram ganho de causa aos conservadores. As taxas de crescimento anual- da economia foram exuberantes: 1956 = 3,2; 1957 = 8,1; 1958 = 7,7; 1959 = 5,6; 1960 = 9,7. E não seria impróprio atribuir ao carry-over do período juscelinista parte da saborosa taxa de 10,3, em 1961, já no mandato de Jânio Quadros (Conjuntura Econômica, 1972, Separata: 25 Anos de Economia Brasileira, Estatísticas Básicas – FGV). Em contraposição, o índice de preços saiu de um patamar de aumento já elevado de 12,4%, em 1955, avançando a 24,4%, em 1956, e terminando o ano de 1959 com 39,5%, recorde desde o restabelecimento da democracia em 1945. Como de costume, o decreto 39.604-A, de 14 de julho de 1956, concedeu adicional de salário somente aos trabalhadores da indústria. Mais usual ainda, não houve reajuste salarial em 1957 ou em 1958 (Ibre/FGV, Índice de Preços Selecionados – Variações Anuais, 1946/1980).


A decomposição pelo avesso compromete um pouco o brilho do desempenho agregado dos indicadores econômicos de JK.


O oposto se dá com as taxas agregadas de aumento do PIB per capita de Lula I e II. Se mais modestas, elas revelam, contudo, a falsificação da tese hegemônica de que vigoroso crescimento econômico seria incompatível com taxas inflacionárias cadentes. Manutenção do poder de compra dos salários, então, segundo a ortodoxia republicana, nem pensar, sendo ademais delirante a hipótese de que, no Brasil, a economia suportaria aumentos reais na renda dos assalariados. Tentativas anteriores teriam conduzido o País ao limite da anarquia política e à desorganização das contas públicas (fortíssimos indícios, de acordo com as mesmas fontes midiáticas conservadoras e seus conselheiros, de planos sindicalistas revolucionários). Como se vê, não é tanto a história que se repete quanto à natureza e origem dos obstáculos que dificultam a sua progressão.


A avalanche de indicadores positivos durante o governo Lula soterrou o pessimismo.

A retomada do crescimento econômico veio acompanhada de inflação cadente e sob controle, acrescida de inédito aumento na massa de rendimento do trabalho. Em particular, o salário mínimo real dos empregos formais aumentou em 54%, entre 2002 e 2010, estendendo-se o número de trabalhadores com carteira assinada a mais de metade da população economicamente ocupada (Dieese: Política de Valorização do Salário Mínimo, in: Nota Técnica nº 86, São Paulo, 2010). Foram mais 15 milhões de brasileiros a obter empregos com direitos trabalhistas reconhecidos (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged, novembro 2010). Naturalmente, também cresceu o número de assistidos pelo sistema da Previdência Social. A curva do desemprego, outro fantasma da excessiva prudência conservadora, apresentou uma evolução favorável, com taxas cadentes desde 2005 até o recorde favorável de 2010, quando a taxa de desocupação foi reduzida a 5,9% da população economicamente ativa.


Vale registrar que o desmonte das hipóteses econômicas sombrias se processou com crescente e pacífica participação nos assuntos públicos por parte de todos que o desejaram. Não houve qualquer repressão oficial a movimentos populares, opiniões ou manifestações políticas. Nenhum grupo social popular ou conservador teve cerceados ou amputados direitos de expressão pública. Ao contrário, entre 2003 e 2009, foram promovidas 59 conferências nacionais sobre os mais variados temas, com o envolvimento de mais de 4 milhões de pessoas, ademais da criação ou reorganização de 18 conselhos para tratamento de problemas históricos da população (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Caderno Destaques, novembro/dezembro de 2009, Brasília).


Ao contrário da anarquia prevista, a substituição de um sistema de valores e de práticas de perfil tradicionalmente elitista por uma orientação de governo comprometido com a promoção econômica, social e cultural da vasta maioria de trabalhadores brasileiros, em particular de suas camadas mais pobres, inaugurou um clima de temperatura política tolerante e cooperativa. São os extremos de dogmático espectro ideológico que, hoje, lastimam a redução na intensidade dos conflitos que, preveniam, seriam atiçados pelo governo Lula da Silva. O absoluto respeito por parte do Executivo às regras do jogo e às demais instituições do País – judiciárias, legislativas, estaduais – é um dos aspectos incluídos no reconhecimento que a população dispensou ao governo, em porcentagens acima até mesmo do apoio eleitoral que lhe deu.

A comoção que acompanhou a transmissão da faixa presidencial à presidenta eleita, Dilma Rousseff, bem como a despedida do presidente Lula da Silva, testemunha a extensão de seu sucesso, excepcional contradita às suspeitas que cercaram sua posse em janeiro de 2003.

Crescer economicamente, administrando a inflação com racionalidade, promovendo a criação de empregos e a valorização real da renda dos trabalhadores não é equação a ser resolvida em demonstrações doutorandas, mas pelo compromisso axiomático do governo com a justiça social e com o progresso material e soberano do País.


Para ser desigual alguém precisa existir. Parece óbvio, mas, em 2006, de acordo com projeções do IBGE, 12,6% da população não existia oficialmente. Em 2002, teriam sido 20,9%. Em Rondônia, o número de nascidos e não registrados no primeiro ano de vida alcança 40%, recorde nacional, e, no Amapá, 33% (Secretaria de Comunicação Social, Caderno Destaques, nov/dez 2009). No total, são pessoas que não dispõem ou dispunham de documento comprobatório de existência, nascimento, nome ou residência. Consequentemente, desassistidas de qualquer tipo de política pública ou direito civil. Para a maioria da população, o acesso a registros tais como certidão de nascimento, carteira de identidade, CPF e carteira de trabalho aparece- -como -fatos tão naturais quanto o nascer, crescer e trabalhar. Não obstante, foi necessário um governo popular se interessar por essa multidão oficialmente invisível e passar a despender recursos para trazê-la à luz do dia. Mutirões foram realizados e outros 1.225 previstos para 2010, particularmente na Amazônia Legal e no Nordeste, para execução do programa de Ampliação do Acesso à Documentação Civil Básica. O alvo é o contingente de brasileiros constituído de povos indígenas, quilombolas, ciganos, ribeirinhos, trabalhadores rurais, moradores de rua, catadores de recicláveis, crianças e idosos em abrigos, distribuídos em municípios de elevados índices de sub-registro.



É duvidoso que um item dessa natureza seja facilmente encontrável na decomposição de qualquer indicador agregado dos governos anteriores, próximos ou remotos. Mas eles fazem parte do povo de Lula, tanto quanto a vanguarda operária dos centros industriais das grandes cidades e a classe média recém-engordada por passageiros vindos das classes D e E.

Na vasta maioria dos casos, o acesso à documentação representa o ingresso em alguma ou várias formas reconhecidas de desigualdade. Nada mais fácil para um brasileiro do que se incorporar a um desequilíbrio social, de um lado ou de outro: gênero, cor, instrução, renda, idade, geografia de nascimento e até estética são portais escancarados à estratificação e discriminação. Entre outros, e crucial, é o portal da Justiça.


A Justiça é dispendiosa para todas as pessoas e para os pobres em particular, além de cara, amedronta mais do que apazigua. Ainda agora- o IBGE- -publicou preciosa pesquisa sobre Características da Vitimização e do Acesso à Justiça no Brasil (IBGE, 2009), com números sobre violência contra pessoas e contra a propriedade, repetindo em certa medida investigação semelhante que realizara em 1988, há 22 anos, portanto. Entre as infaustas novidades encontram-se as que dizem respeito às vítimas preferenciais da violência por classe de renda e idade, por exemplo, e seus algozes. Com base em amostra nacional de 399.387 pessoas e 153.837 unidades domiciliares distribuídas por todas as unidades da Federação, os resultados revelam um quadro comparativo ainda desalentador. Mesmo em casa, não mais do que 78,6% das pessoas se sentem seguras, porcentagem que cai para alarmantes 52,8% da população quando estão na cidade, longe da casa e do bairro.


Há substancial variação regional nesses números, aparecendo a Região Norte como aquela em que a população se sente menos segura, seja em casa (71,6%), no bairro (59,8%) ou na cidade (48,2%). Segundo a pesquisa, os homens sentem-se mais seguros que as mulheres, sem diferença marcante entre brancos e pardos, nesse item sobre subjetividade, em qualquer dos locais investigados. Cerca de 8,7 milhões de pessoas, 5,4% da população residente de 10 anos de idade ou mais, foram vítimas de roubo e/ou furto no período de 27 de setembro de 2008 e 26 de setembro de 2009, com a maior incidência ocorrendo com pessoas- de 16 a 34 anos de idade. A violência física caminha na direção inversa à da renda, com a maioria agredida situando-se na faixa de um quarto do salário mínimo. Os autores da violência física foram desconhecidos, em 39% dos casos, pessoas conhecidas em 36,2%, cônjuge ou ex-cônjuge, 12,2%, parentes em 8,1% das agressões e 4,1% de autoria de policiais ou seguranças privadas. Entre as mulheres, 25,9% delas foram agredidas por cônjuge ou ex-cônjuge. Sujeitas a várias discriminações, as mulheres e a população não branca atestam vários dos desequilíbrios sociais praticados pela sociedade, não obstante a legislação penal existente.


Entre 1988 e 2009, a violência contra a população branca foi reduzida de 64,6% para 52%, enquanto a população preta ou parda, vitimada, aumentou de 34,9% para 47,1%. O mesmo fenômeno se deu na comparação por gênero: a porcentagem de homens roubados ou furtados decresceu de 58,3% para 53,1%, enquanto a das mulheres aumentou de 41,7% para 46,9%. As porcentagens relativas à violência física seguem o mesmo padrão: enquanto a população branca, em particular a masculina, obteve acréscimos de segurança, nos últimos 20 anos, a probabilidade de sofrer agressões corporais aumentou para a população feminina, preta e parda.


Embutido nesses números está o testemunho da extensão em que níveis de pobreza, por certo, mas igualmente da aspereza da cultura cívica somam-se para fabricar uma sociedade ainda predatória e discriminatória. Sua superação exige largo intervalo de tempo.


Do outro lado da ponta da prevenção, que claudica, encontra-se a oferta de proteção jurídica. A nova Lei Orgânica da Defensoria Pública, de outubro de 2009, ampliou e tornou efetiva a possibilidade de que cidadãos sem capacidade financeira para a contratação de advogados obtenham condições de trazer pleitos junto aos tribunais. Entre 2003 e 2008, o número de defensores públicos passou de 3.250 para 4.525, e o número de atendimentos jurídicos de 4,5 milhões para 9,6 milhões, um acréscimo de 113% (Fonte: Ministério da Justiça).


O Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte, criado em 2003, embora não implantado ainda em todos os estados, já atendeu 1.375 crianças e adolescentes e 2.255 familiares. Diante da incessante fábrica de desigualdades, -discriminações e violência que é a sociedade brasileira, programas como o (PPCAAM), entre outros, e inovações institucionais como as Secretarias Especiais da Mulher e da Promoção da Igualdade Racial, que atuam sobretudo na reparação de transgressões, não deixarão de apresentar resultados mais substantivos no longo prazo.


Se a violência estrutural é difusa e resistente, a redução das carências iminentes da população pobre – atendimento à saúde e educação – depende fortemente da disposição e ação governamentais. O número de farmácias populares para atendimento ao povo de Lula cresceu 1.826%, entre 2004 e 2008, vendendo mensalmente medicamentos a preço de custo a 1 milhão de pessoas. Outro milhão de pessoas adquire medicamentos, por mês, com descontos de até 90%.


O programa Saúde da Família é conhecido, mas nem tanto o programa Brasil Sorridente, para o povo malcuidado, tópico embaraçoso para governos de elite. Em 2004, foram instalados cem Centros de Especialidades Odontológicas, aumentados para 771, em 2009. Com 18.650 equipes, atenderam 87 milhões de brasileiros, em 2009 (Ministério da Saúde, Boletim, novembro de 2009).


Programas para portadores de deficiência física, que alcançam 14% da população do País, incluíram a adequação de 10.489 escolas, entre 2007 e 2009, para atendimento especializado (Seesp/MEC). O ProUni, educacional, o Programa da Agricultura Familiar, produção de alimentos, e o Minha Casa Minha Vida, habitacional, somam-se aos referidos para orquestrar o que constitui o compasso essencial do balanço de Lula. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem papel destacado na composição do PIB dos últimos anos, com certeza, assim como as iniciativas nas áreas da grande agricultura e da exportação. A visibilidade do programa Bolsa Família e suas dezenas de milhões de famílias recuperadas à miséria a instala por gravidade no centro da atenção midiática.


Mas o pernóstico debate sobre atribuído assistencialismo do programa ofusca o princípio ordenador das prioridades do governo e o sentido histórico dos dois mandatos do presidente Lula da Silva. Crescimento econômico, inflação sob controle, expansão do emprego e redução das desigualdades sociais são metas compatíveis, sim, entre si e com a democracia, desde que o governante adote políticas em harmonia com a agenda preferencial do povo – isto é, do povo de Lula.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

45 MOTIVOS P/ NÃO VOTAR NO SERRA!

45º Serra ñ acredita no Bolsa Família: em SP, 300 mil famílias podiam receber o benefício, mas só 170 mil de fato recebem




44º Em plena crise econômica de 2009, Serra cortou R$ 2,77 bilhões que seriam destinados a investimentos do Estado!

43º A política de segurança pública do Serra é tão boa q em SP já tem estilingue gigante de celulares ao lado de presídio

42º Serra não investe na formação de professores: em 2009 ele deixou de investir metade da verba prevista p/ capacitação!

41º O Saresp mostrou: em SP, no governo Serra, alunos da rede pública terminam ensino médio com conhecimento de 8a série!



40º Para Serra, educação é assunto de polícia: quem se lembra de como ele tratou professores em greve de SP? A paulada!

39º Serra e o ensino em SP: valor da hora-aula paga por Serra aos professores de SP é metade do valor pago em Roraima!

38º Como Serra valoriza professores: SP caiu 4 colocações no ranking de salários de docentes - o estado ocupa o 14o lugar 37º Educação no gov Serra: mais da metade dos alunos que concluíram ensino médio em SP não sabiam o básico de matemática! #45motivosSerraNAO 36º A política de educação do Serra é um desastre: SP teve uma das piores notas na prova de matemática do Saresp!

35º O (des)respeito de Serra pelos servidores é tão grande que o tícket refeição pago por ele é de R$ 4,00 (vale-coxinha)

34º Valorização dos servidores públicos? Serra não sabe o q é isso! Funcionário público no gov Serra tem salário defasado

33º Serra quer tirar todas as responsalidades do Estado: no ABC, 90% do pessoal da Saúde é terceirizado! Ele é privatista

32º Serra podia ter construído 84 novos hospitais em SP com 250 leitos cada, mas preferiu realocar a verba para área adm!

31º O gov Serra, em SP, tem 51 contratos que somam R$ 63 milhões com uma empresa envolvida no mensalão do DEM! Suspeito!

30º Serra sucateou o SUS em SP, terceirizando os serviços da Saúde, através das OSS! É uma privatização disfarçada!

29º Serra cuida mesmo da saúde do povo? Dos R$ 104 milhões previstos para Saúde da Família, ele gastou só R$ 79 milhões

28º Serra diz ter “obsessão” pela Saúde, mas usou mais de R$ 2 bilhões do SUS em aplicações no mercado financeiro!

27° Serra diz q cuida bem da Saúde: mas a dengue em SP cresceu + de 1000% só no 1º trim de 2010! Ele cuida bem do Aedes!

26º Serra tem DNA da Mentira é amigo de FHC que diz ter criado o Real, na verdade o Real foi criado por Itamar Franco

25º Serra mente, se diz autor do Programa Combate a AIDS, na verdade o Programa é de Lair Guerra e Adib Jatene



24º Serra mente, diz que foi autor dos genéricos, quando na verdade foi Jamil Haddad o autor, em 1993

23º Serra mente, disse que não deixaria a prefeitura em São Paulo, dois anos depois disputou eleição para Governador #45motivosSerraNAO

22º Serra vendeu a Nossa Caixa, o ultimo banco público de São Paulo. Ele é privatista.

21º Serra não coloca o pé no barro. Trabalha pouco. Sua agenda só começa depois do meio dia

20º Serra é preconceituoso, disse que o problema do ensino em São Paulo são os Nordestinos

19º Serra manteve policiais infiltrados em movimentos sociais em São Paulo, agindo como um ditador.

18º Sempre votou contra os Trabalhadores, recebeu nota de 3,75 do DIAP como dep. federal constituinte

17º Mau-tratos a Professores e Funcionários Publicos e sucateamento da Educação

16º Guerra entre Policiais, Crime Organizado Tomando Conta, Assaltos, Sequestros, Crack este é o Jeito Serra

15° No gov FHSerra, diplomata brasileiro tirava sapato para entrar nos EUA. Hoje, Obama reconhece Lula como grande líder.

14º Para Serra, o problema do Brasil é excesso de estado. Lula provou que é a falta dele.

13° Serra foi ministro do Planejamento e o que conseguiu planejar foi o APAGÃO por OITO MESES.

12º tudo o q construímos nestes anos estará perdido,os tucanos tem ligação c empreiteiras e terá que repartir o bolo

11º você só ouve falar do Serra ou qualquer outro político do PSDB em época de eleição, depois eles desaparecem.

10º Serra tem o apoio da revista Veja,que sabemos luta contra o crescimento do país e faz de tudo para desestabilizar

9º Em seu quadro a oposição tem políticos como Arthur Virgílio,Tasso Jereissati, ACM Neto, FHC e Arruda claro.

8º Todo mal q foi feito por FHC, como as privatizações, estará de volta. Atenção, ainda temos a Petrobrás!

7º No governo Serra a violência aumentou muito em São Paulo. Falta Segurança Pública e valorização dos policiais.

6º As cidades paulistas estão cercadas por pedágios. O preço? O maior do mundo.

5º O PSDB governa para a elite e depois de eleitos, esquecem da população. 4º O partido de Serra está no poder em São Paulo há mais de 15 anos e todos sabem como SP parou! Não quero isso .

3º Serra: Arrocho, descaso, má gestão!!!

2º SERRA acabou com SP, se vc deixar vai acabar com o Brasil

1º SERRA, representa o retrocesso e a Privatização, FHSERRA Nunca Mais!!!

Moral da história: Eleger o vampiro Serra é o FIM para o Brasil.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O começo DILMA vitória do povo

Começa a campanha eleitoral, com o registro das candidaturas nos tribunais regionais e no TSE. O PT atingiu quase todas as metas que deliberamos em nosso 4º Congresso. A prioridade da eleição presidencial foi cumprida e a visão de ampla aliança com base na coalizão que sustenta o governo Lula foi materializada na coligação que apoia Dilma e Temer. Como diria um amigo nosso, nunca antes na história deste partido fomos tão amplos e tão bem sucedidos em nossa aliança. O PT soube ceder em vários estados, na composição das chapas majoritárias. Queremos crescer, como todo partido. Mas hoje temos a responsabilidade de crescer com os aliados e trabalhar para manter no comando da República o projeto que transforma o Brasil.



Nossa candidata, que, para muitos da oposição e até para alguns na base e no PT, era uma aposta arriscada, mostrou que tem “café no bule” e chega ao começo da campanha empatada com Serra, na pior das hipóteses e das pesquisas. Dilma está segura, tem um amplo apoio partidário, tem o suporte da maioria dos movimentos sociais e de grande parte do empresariado. Tem um programa de governo realista e ousado, baseado no sucesso dos oito anos de Lula, nos quais ela foi peça fundamental. Nossos adversários não tem programa de governo e ainda tem que explicar o governo FHC e o governo Serra em São Paulo, com seus pedágios, educação decadente e segurança pública em crise permanente.



Estamos bem, mas não ganhamos nada ainda. Temos que construir esta vitória nas ruas, com o povo, para vencer as eleições e consolidar politicamente o projeto que queremos para o Brasil.



O povo sabe, agora, que crescer é possível e que para crescer é necessário distribuir, é preciso ter uma nova visão do papel do Estado e uma nova inserção internacional. A campanha nacional do PT deve mostrar que isso será muito mais efetivo se a grande maioria das 27 unidades da federação estiver com o projeto nacional. Nós, de São Paulo, devemos ter competência para demonstrar que o estado que tem 25% da população e 40% do PIB é peça chave do projeto e é vital termos alguém alinhado no Palácio dos Bandeirantes. A vitória de Aloizio Mercadante pode ser uma alavanca fundamental para um sucesso ainda maior do governo Dilma.



Agora é hora de trancar todos os saltos altos no armário e colocarmos os pés no chão, amassar o barro e conquistar a vitória de um sonho que mostrou ser viável. Às ruas, PT.



Ricardo Berzoini é deputado federal e foi presidente nacional do PT

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Lula é inspiração para esquerda democrática, diz premiê português !

BBC

O primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, vê o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como "um dos grandes nomes da esquerda mundial". Em entrevista exclusiva à BBC Brasil antes de embarcar para uma visita de três dias ao Brasil, Sócrates afirmou que o presidente tem um capital político que não deve ser desperdiçado e que Lula poderia ocupar qualquer posição de relevo na cena internacional.

O primeiro-ministro afirmou ainda que o crescimento econômico e político brasileiro pode ajudar Portugal e disse acreditar que seu país está se tornando uma plataforma para empresários brasileiros atuarem no mercado europeu.

A respeito da economia europeia, ele afirmou que o euro não está em risco e que a moeda só sofreu os problemas que teve por ser "jovem". Diz que a economia da zona euro não tem motivos para ser pior avaliada do que a norte-americana ou a japonesa, por ter um déficit inferior.

No Brasil, Sócrates irá para participar no 3º Fórum para a Aliança das Civilizações, que ocorre esta semana no Rio de Janeiro com a presença de Lula.

Na quinta-feira, ele estará na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), na capital paulista, para um encontro com empresários brasileiros que investem em Portugal na Fiesp.

Na sexta, terá um encontro no Rio de Janeiro com empresários portugueses interessados em fechar negócios no Brasil. No sábado, o primeiro-ministro português vai à Venezuela, para uma visita de um dia.


Leia a seguir os principais trechos da entrevista:



BBC Brasil - O presidente Lula termina seu segundo mandato depois de conseguir uma considerável projeção no cenário internacional. O sr. vê algum futuro político para Lula neste cenário?


José Sócrates - Eu já tenho dito isso, (a retirada de Lula do cenário internacional) seria um desperdício, mas a verdade é um pouco mais profunda. A esquerda mundial tem que ter referências e o presidente Lula teve os maiores sucessos a nível da governança nas últimas décadas.

O presidente Lula deixa um legado de uma governança econômica muito responsável e muito equilibrada, ao mesmo tempo que desenvolveu políticas sociais.


E esse legado é importantíssimo para a esquerda mundial e hoje serve de inspiração e de referência para todos os governantes da esquerda democrática.


BBC Brasil - O que o senhor acredita que o presidente Lula deveria fazer depois do mandato?

Sócrates - O presidente Lula tem muitas oportunidades e muitas possibilidades. O mais importante é que ele continue ativo na política ativa mundial.


BBC Brasil - Mas fala-se do Banco Mundial, do cargo de secretário-geral da ONU, com uma estrutura reformada.

Sócrates - Acho que o presidente Lula tem hoje um capital político que lhe permite ocupar qualquer lugar internacional de referência e julgo que é uma honra para a esquerda mundial ter um de seus grandes valores de referência e ser de língua portuguesa. Isso é um orgulho muito grande para quem fala português, verificar que o presidente Lula é um dos grandes nomes da esquerda mundial.

BBC Brasil - Como o senhor avalia a importância econômica que o Brasil atingiu neste momento?
Sócrates - O Brasil é a grande revelação do mundo nos últimos anos. Não apenas uma revelação ao nível econômico, mas também ao nível político. O país tem uma subida no contexto geoestratégico.
O mundo mudou muito, e esse é um dos fatores de mudança, a ascensão do Brasil, que é criticamente estratégica para Portugal. À medida em que o país sobe no conceito das nações, Portugal vai atrás.
Tem sido muito agradável verificar que o Brasil deixou de ser um país de potencial para se afirmar como uma potência política e econômica.


BBC Brasil - O Brasil vai ter a Copa do Mundo e a Olimpíada. O que isso traz de oportunidade para os empresários portugueses?

Sócrates - Traz uma grande oportunidade para a cooperação econômica entre as empresas portuguesas e as brasileiras. Julgo que a relação econômica entre as duas economias está cada vez mais forte, mais ligada. É muito agradável poder reconhecer que o Brasil finalmente descobriu Portugal como o país em que se pode investir para se lançar no mercado europeu.


BBC Brasil - Tendo em conta a situação de crise, o senhor acha que Portugal poderia pegar uma carona no crescimento brasileiro?
Sócrates - Sim. O crescimento brasileiro é absolutamente essencial para as empresas portuguesas.
Nós temos muito investimento no Brasil, muitas empresas, e hoje tive uma conversa com empresas portuguesas que estão a investir no Brasil e o desenvolvimento é muito interessante para as empresas portuguesas, que estão há muito tempo a investir no Brasil, desde meados da década de 90.
Pretendemos diversificar esse investimento e na terça-feira passei toda a manhã a falar com as empresas portuguesas sobre a importância que tem para nós o mercado brasileiro.

O mercado brasileiro ainda é um mercado muito protegido, porque o Brasil tem uma política muito concentrada no seu mercado interno - é um mercado grande e pode fazê-lo -, mas julgo que à medida que o país se internacionaliza, que as empresas brasileiras se lançam na aventura da internacionalização, isso abre um espaço de oportunidade imenso para o nosso país.

BBC Brasil - A imagem de Portugal para muitos brasileiros é de um país atrasado. O que Portugal tem a oferecer para o Brasil?

Sócrates - O mais importante para nós é que os brasileiros percebam o que é Portugal. É um país moderno e europeu, que não tem nada a ver com o país de 20 ou 30 anos atrás. É um país que tem indicadores econômicos e sociais e indicadores de conforto de um país europeu.

Julgo que a capacidade da economia portuguesa para cooperar com as empresas brasileiras no desenvolvimento da economia brasileira é uma amostra do seu potencial e nós temos uma cooperação excelente e vantajosa para ambos os países em todos os domínios, nos mais avançados tecnologicamente, nos domínios da cooperação científica e nos domínios energéticos.

Nós somos o país que mais cresceu em termos de energias renováveis, nós somos o país que mais cresceu em termos de tecnologias de informação e comunicação.

Qual é o país que lidera o ranking de governo eletrônico na Europa? É Portugal.

Aqui você constitui uma empresa em menos de uma hora. Eu faço um desafio, tente constituir uma empresa aqui. No ano passado, 52% das empresas constituíram-se em 32 minutos. Você pode constituir aqui uma empresa em menos de uma hora.

Em fevereiro deste ano, 32 empresas por dia foram constituídas online, apenas com base no computador, sem necessidade de ir a nenhuma repartição pública. Portugal é um país muito moderno desse ponto de vista.

BBC Brasil - Portugal foi uma das vítimas do ataque ao euro. O senhor acredita que o euro possa estar em risco?

Sócrates - Não. Isso só acredita quem não conhece a Europa e não conhece o euro.

O euro foi uma das grandes conquistas do projeto europeu. Há 30 anos, ainda tínhamos fronteiras na Europa, tínhamos moedas nacionais e acabamos com tudo isso e formamos uma comunidade em que partilhamos a nossa soberania.

Isso só pode andar para frente. O euro é uma das grandes conquistas políticas dos últimos anos. Os alemães abdicaram do marco, os franceses abdicaram do franco, nós abdicamos do nosso escudo.

Temos uma única moeda para todos. Isso é uma conquista política que traz cooperação, partilha de soberania, paz, liberdade.

A Europa é o continente do mundo onde mais se compatibiliza a liberdade, a proteção social e o crescimento econômico.

BBC Brasil - Mas nessa crise, parece que houve falta de coordenação.

Sócrates - Sabe, o euro é um projeto ainda jovem, tem apenas dez anos. Nós temos que reconhecer que não estávamos preparados para esse ataque (especulativo), porque nunca tinha acontecido.


Esta desconfiança dos mercados relativamente à capacidade de a Europa pagar as suas dívidas foi algo que nunca aconteceu e espero que nunca mais venha a acontecer porque não tem justificação econômica.

Qual é o déficit médio da Europa? Pouco acima de 6%. Quanto é nos Estados Unidos? É 11%. Quanto é no Japão? É 11%. Isso não tem a mínima justificação, nem racionalidade, nem fundamento econômico.

BBC Brasil - E como vai se organizar esse mecanismo de salvaguarda do euro?

Sócrates - Nós já estamos a organizar. Não só definimos um mecanismo para dar garantias internacionais que todos os países da zona euro terão de cumprir suas obrigações e esse mecanismo foi importante ter sido formado.

O Banco Central Europeu também está a agir, e cada um dos Estados está a fazer um esforço para reduzir já este ano e no próximo ano ainda mais os seus déficits orçamentais de forma a oferecer mais confiança.

Isso acontece em Portugal, acontece na Espanha, acontece na Alemanha, onde há notícias de que os alemães também vão aumentar seus impostos, acontece na Itália, na Irlanda.

Todos os países estão a tomar medidas de forma a corrigir seus déficits orçamentais para reforçar a confiança dos mercados internacionais.


Para mais notícias, visite o site da BBC Brasil

quarta-feira, 28 de abril de 2010

GOVERNO LULA:Brasil bate recorde na criação de empregos formais nos últimos sete anos

Nos últimos sete anos, o Brasil deu um salto na geração de postos de trabalho, virando a página da estagnação que marcou a década de 1990 com a chamada “crise do emprego”.




Entre 2003 e 2009, durante o governo Lula, foram criados 12,4 milhões de vagas com carteira assinada. Nos oito anos anteriores (1995 a 2002), foram menos da metade: 5 milhões de empregos, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais).



Segundo os dados, entre 1995 e 1998, o setor público e as empresas privadas criaram 824.394 vagas. Por outro lado, entre 2003 e 2006, primeiro mandato do presidente Lula, foram abertos 6.471.336 postos de trabalho.



Descontados os números do setor público, o balanço das contratações e demissões no setor privado revela que o Brasil encerrou 1999 no negativo, com um recuo de 196 mil.

De 2000 a 2002, houve uma tentativa de reversão do quadro de retração da dácada anterior com a geração de 2 milhões de empregos. No primeiro ano do governo Lula, o Caged registrou ainda a tímida criação de 645 mil novos postos de trabalho. Mas, a partir de 2004, uma sucessão de recordes mudou o cenário de estagnação que dominava o mercado de trabalho.



“Há muita coisa por fazer, mas certamente o Brasil tem o que comemorar. Os trabalhadores têm mais oportunidades e mais direitos. E este é o primeiro governo a manter um diálogo permanente com as centrais sindicais”, afirma o ex-ministro do Trabalho Ricardo Berzoini.



O governo atribui os elevados índices de geração de emprego ao crescimento econômico estimulado pelos investimentos em políticas sociais. A alta do consumo nas classes mais baixas protegeu o Brasil dos efeitos mais nefastos da crise econômica de 2009. Sem investimentos em política social, isso não seria possível. No ano passado, segundo o Caged, foram criados 995 mil postos de trabalho. A maioria dos países desenvolvidos teve redução acentuada dos empregos. Para 2010, a expectativa do governo é de 2 milhões de vagas.



O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique, avalia que a revisão do papel do Estado como regulador e indutor do crescimento econômico foi fundamental para que a “década da resistência” ficasse para trás. Ele cita a política de valorização do salário mínimo, o Bolsa Família e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) como exemplos da “recolocação” do Estado na economia. A taxa média de crescimento da economia passou de 2,1% (1999-2002) para 3,3% (2003-2005), devendo atingir 5,8% em 2010.



“Passamos os anos 1990 resistindo aos ataques da política neoliberal contra os salários e as políticas sociais. Hoje vemos que crescimento econômico tem que vir aliado à inclusão social e distribuição de renda”, nota o presidente da CUT.

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os lobos das pesquisas eleitorais

Postado por José Dirceu as 15:58 h




Recebeu pouco destaque na semana passada uma inusitada polêmica sobre os resultados das pesquisas eleitorais à Presidência da República. O ponto de discórdia foram os resultados destoantes que o Datafolha apresentou, com o tucano José Serra à frente (36% de intenção de voto) e a ex-ministra Dilma Rousseff nove pontos percentuais atrás (27%). Os dados referem-se a um levantamento feito no final de março, mas foram praticamente repetidos em meados de abril (Serra com 38% e Dilma com 28%).



Os números dos dois levantamentos são altamente contraditórios com a tendência verificada por todos os institutos em pesquisas anteriores, inclusive pelo Datafolha, que apontara em fevereiro 32% para Serra e 28% para Dilma, resultados que consolidavam a aproximação constante e consistente de Dilma registrada desde março de 2009.



A situação foi reforçada pelo Vox Populi no final de março deste ano (Serra 34% e Dilma 31%), mas também pelo Sensus no início de abril (Serra 32,7% contra 32,3% de Dilma). Ambos traziam um cenário de empate técnico, algo esperado pelos analistas.



Diante da divergência numérica, a Folha de S.Paulo, do grupo do Datafolha, adotou comportamento questionável para justificar os números destoantes: jogou suspeitas sobre o trabalho dos dois institutos concorrentes. O Vox Populi e o Sensus viraram alvos da Folha. O primeiro passou a ser suspeito de usar uma ordem de perguntas que poderia, supostamente, direcionar as respostas dos entrevistados. O segundo foi criticado por um erro no registro do contratante da pesquisa.



Mas notem que até aquele momento a metodologia do Vox Populi não havia sido alvo de questionamentos. E não poderia ser, pois os resultados eram semelhantes aos apresentados por outros institutos. Da mesma forma, é leviana a insinuação de que o Sensus comprometeu seus resultados porque errou o nome do contratante, quando o que importa é a metodologia aplicada.



Qualquer analista de pesquisa sério que observe os dados apresentados por todos os institutos do último ano ficará intrigado com os números trazidos pelo Datafolha. Simplesmente porque há uma máxima analítica que diz ser necessário olhar a trajetória dos candidatos, não o resultado em si. Ora, a trajetória clara na disputa eleitoral é de estagnação e princípio de queda de Serra e crescimento de Dilma.



Ao contrário do que tentou propalar a Folha, as suspeitas recaem sobre o Datafolha, não sobre os seus concorrentes. É lógico que existe a possibilidade de o Datafolha ter indicado uma nova tendência, ainda não captada pelos demais institutos, mas é preciso que a mesma se confirme nos próximos dois meses.



Não nos esqueçamos, contudo, que a Folha fez questão de publicar em fevereiro que, embora a margem de erro fosse de dois pontos percentuais, os 32% de Serra contra os 28% de Dilma não era uma situação de empate técnico porque a chance de ambos com 30% era estatisticamente improvável. Ou seja, recorreu a instrumento estatístico inédito para justificar a opção por não levar à manchete o empate entre os candidatos.



Lembremos também que foi a Folha que publicou, em 1998, na semana das eleições e no dia da votação, pesquisa Datafolha para o Governo de São Paulo com o ex-governador Mário Covas bem à frente da candidata do PT, Marta Suplicy. Abertas as urnas, verificou-se que Marta quase foi para o segundo turno no lugar de Covas.



Esse conjunto de fatores provocou reação do Vox Populi e do Sensus, além de reparos também por parte da Abep (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa). Afinal, o adequado seria um debate profundo de metodologias e de resultados, não a tática de jogar suspeita sobre os concorrentes. Mas talvez o jornal soubesse que esse debate daria razão ao Vox Populi e ao Sensus.



Aos eleitores —e leitores—, vale o alerta do episódio: a campanha eleitoral será recheada de supostas controvérsias plantadas com o objetivo de evitar o real debate a ser feito no país, o das realizações no Governo e dos projetos para os próximos quatro anos. Neste 2010, há mais lobos em peles de cordeiro do que podemos imaginar.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Serra pode mais...

Hoje pela manhã fiquei assustado com um amigo eleitor antigo do PT.


O cara disse: Gilvan, eu vou votar no PSDB.

Eu disse: não acredito, por que você, que sempre votou no PT, vai votar em Serra?

Ele disse: Serra pode mais.

Eu disse, o que, Henrique?

Ele: pode mais, sim. E emendou:

Serra pode roubar mais.

Pode aumentar a inflação.

Pode perseguir os movimentos sociais.

Pode comprar o PiG.

Pode aumentar o desemprego.

Pode aumentar os juros.

Pode demitir servidor público.

Pode privatizar o Banco do Brasil, a CEF, o BNDES, a PETROBRAS.

Pode acabar com o PAC.

Pode acabar com o Bolsa Família.

Pode entregar o Pré-sal aos gringos.

Pode acabar com as universidades federais.

Pode jogar corrupção para debaixo do tapete.

Pode comprar deputados.

Pode pedir novos empréstimos ao FMI.

Pode recriar o CPMF.

Pode acabar com o Piso Nacional do Magistério.

Pode aderir à ALCA, ao invés do MERCOSUL.

Pode aumentar tributo.

Pode arrochar o salário do servidor público.

Pode colocar a PF para bater em grevista.

Pode abafar CPI.

Pode nomear FHC para o Ministério da Fazenda(este adora o FMI.

Pode nomear Daniel Dantas para o Ministério da Justiça(este é de uma honestidade imensurável).

Pode nomear Eduardo Azeredo para o Banco Central(este entende de caixa dois).

Pode nomear Sérgio Guerra para o Ministério do Planejamento(este entende muito bem de orçamento).

Pode nomear Roberto Arruda para o Ministério do Bem-Estar Social(panetone é o que não vai faltar.

Pode nomear Kátia Abreu para o Ministério da Reforma Agrária(esta entende de trabalho escravo).

E por aí vai.

Entendeu, Gilvan, por que eu vou votar em Serra? Ele pode mais ou não pode?Eu disse: Ah! entendi. Pode, claro!

domingo, 18 de abril de 2010

ENTREVISTA COM DILMA:Leia a íntegra de entrevista com Dilma Rousseff

Nessa entrevista exclusiva ao O POVO, a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, dá mostras de como deverá ser sua campanha eleitoral. Dilma defende um “pensamento nordestino” para o Brasil, responsabiliza os adversários pela estagnação do passado e diz ter “parte de si” no projeto do presidente Lula. Leia as declarações de Dilma na íntegra:


DILMA – Não, você sabe que hoje foi bom, porque eu acho que foi uma agenda muito prazerosa (visita a Fortaleza em 12 e 13 de abril), às vezes a agenda é mais difícil, você tem que correr muito, andar muito, né? Eu achei essa agenda assim muito prazerosa, porque eu também me senti muito bem aqui. Desde ontem eu estou assim numa trajetória muito boa, primeiro porque eu recebi o título, né, de cidadã de Fortaleza. E é comovente você receber um título de cidadão, ou de cidadã, que é o meu caso, duma cidade como Fortaleza, e eu acho que tem uma representação tão significativa de homens e de mulheres, e depois, pela manhã, eu estive com o Cid, foi uma conversa muito boa, depois eu vim aqui nessa recepção maravilhosa do jornal O POVO.

O POVO – Mas já dá um sentido de como vai ser a campanha, viagens, correria.

DILMA – Você corre, viu, você corre.


O POVO – A senhora está preparada?

DILMA – Posso falar uma coisa? A nossa vida no governo não era propriamente um mar de tranqüilidade, não, porque a gente, além de viajar muito, fazer eventos, prestar contas à população, que o presidente sempre fazia questão, e a gente correu o Brasil, além disso, eu chegava e ia trabalhar, né. E aí você não descansa, você leva para casa todas as preocupações. Na campanha também você tem igual. Agora, eu, vamos dizer, estou com um treinamentozinho, né, que me permite dizer que eu estou agüentando bem essa fase.

O POVO – A senhora já tem claro hoje por que foi escolhida pré-candidata do presidente?

DILMA – Por que que eu fui? Eu acho que porque, pelos mesmos motivos que levaram o presidente a me escolher como ministra-chefe da Casa Civil. Porque a ministra-chefe da Casa Civil é o cargo, do ponto de vista político-administrativo, mais importante do governo. É a coordenação geral do governo. Por mim passavam todas as leis, as medidas provisórias, os decretos, e passavam também os grandes programas do governo. E a minha atividade é fazer a coordenação disso. Eu acho que esse contato diário que eu tive com o presidente, e que levou que nós estreitássemos... pessoas que trabalham muito tempo perto passam a se entender pelo olhar, né, você tem uma comunicação muito forte. Acho que o presidente confia em mim para que o nosso projeto de país seja um projeto bem sucedido, e essa confiança do presidente em mim faz com que esse desafio que eu tenho pela frente... eu vou honrá-lo, eu vou defender esse projeto, vou garantir que ele avance e isso que eu chamo de uma nova era que nós abrimos no governo Lula, eu vou garantir a continuidade. Eu também acho que porque ele viu em mim qualidades para manter e para garantir essa continuidade, e ele sabe que eu conheço o governo, sabe que uma parte desse projeto tem uma parte de mim.

O POVO – Mas vai ser uma réplica do governo Lula?

DILMA – Nunca é.

O POVO – E como vai ser o governo Dilma?

DILMA – Sabe o que vai ser, vai ser o seguinte, vai ser um governo Lula avançado. Que é um governo Lula avançado? Quando nós começamos, nós começamos do nada. Não tinha projeto, o Brasil não tinha, há anos e anos que não planejava, e havia toda uma demanda também, seria muito grave uma situação do Brasil hoje se nós não tivéssemos feito os programas sociais que nós fizemos, muito grave, porque você teria uma parte muito importante da nossa população sem nenhuma perspectiva, sem futuro. Hoje, não, nós temos clareza de que a população brasileira, os mais pobres desse país têm expectativa de futuro e podem tê-la porque nós vamos cumprir essa expectativa, nós demos um início a isso. Mas ainda tem muita gente para a gente tirar da pobreza, tem muita gente, milhões e milhões de brasileiros, para a gente continuar elevando à classe média. Uma política no Brasil é uma política de desenvolvimento sustentável, então, daqui para a frente, nós vamos ter que elevar a taxa de investimento do país, o Brasil saiu de uma taxa de 13% e vai ter que chegar a uma taxa de 21% de investimento. Nós vamos ter de aprimorar a construção da nossa infraestrutura, nós não vamos parar de construir ferrovia nesse país, né, nós fizemos um pedaço do, vamos dizer, da espinha dorsal, que é a norte-sul, vamos parar no final de 2010, vamos estar aí parados em Anápolis.

O POVO – Mas a senhora tem críticas ao atual governo? Poderia ter sido feita alguma coisa a mais do que foi feito?

DILMA – Se eu elencar uma porção de se para você, poderia, “se” a gente tivesse encontrado um projeto, nós não encontramos, “se” o Brasil tivesse uma experiência de crescimento, não tinha, “se” as prefeituras que passaram anos e anos sem investir, na hora que nós colocamos dinheiro, elas também não tinham dinheiro para ficar fazendo projeto que ia para uma gaveta, “se” os governos do Estado também tivessem... Então, tem uma quantidade de se que não vale a pena a gente tratar.

O POVO – Mas são dois governos, ministra...

DILMA – Não, eu quero dizer o seguinte, nós fizemos, nós trocamos o pneu do carro com ele andando. Eu não vou precisar de trocar o pneu do carro com ele andando. Nós reconstruímos o planejamento no setor elétrico, nós pegamos o pré-sal e mudamos o pré-sal, por que é que nós montamos o marco regulatório, para poder obter mais riqueza com esse marco regulatório, nós mudamos a forma de olhar a habitação popular no Brasil. Não podia, não sei se você sabe disso, era crime subsídio, era visto como uma influência negativa, como se você estivesse deturpando o mercado, como se o mercado conseguisse resolver a equação entre uma pessoa ganhar até três salários mínimos e a casa custar R$ 50 mil. A conta não fecha, só tem um jeito dela fechar, bota a mão no bolso do Tesouro Nacional, tira o dinheiro e dá diretamente para a pessoa ou a família que vai ser beneficiada. Então, nós mudamos modelos. O que eu me orgulho é de ter ajudado a mudar esses modelos, de ter participado diretamente. Eu saía da radioterapia, ia para um prédio da Petrobras, onde a Petrobras tem escritório em São Paulo, e passava a tarde inteira de uma reunião sobre o pré-sal. Então, uma parte de mim está ali, ou seja, eu não sou uma pessoa que estou fora desse governo, ele é outro governo. Eu ajudei para que esse governo tivesse as condições de fazer o futuro. Eu sei cada passo dele, eu sei, por exemplo, a importância do Território da Cidadania, pegar as regiões mais pobres do Brasil e fazer uma política de territorialidade, os Pontos de Cultura, do Ministério da Cultura, que pegou o dinheiro e distribuiu por uma porção de cidades desse país, tirando o dinheiro da cultura do centro-sul do país e levando a cultura brasileira, que é diversificada, para todos os lugares. Hoje, eu estava saindo daquela reunião, e uma das pessoas, eu não sei nem o nome dele, me falou “olha, você não falou da banda larga nas escolas”, não falei da banda larga nas escolas, porque não dá tempo de falar de tudo. Tem... O governo abriu a banda larga, mas não fez. Nós vamos fazer a banda larga nos próximos anos.

O POVO – Agora, ministra, insistindo um pouco, existe alguma autocrítica em relação àquilo que se poderia fazer mais... Por exemplo, o Fome Zero, quando foi implantado, tinha um objetivo, mas foi transformado no Bolsa Família, e acabou sendo questionado em muitos momentos porque passou a ser unicamente um programa de transferência de renda, e não como era a proposta do Fome Zero no início, algo mais amplo, para dar autonomia às famílias. Isso é um ponto que pode ser criticado?

DILMA – De jeito nenhum. Veja bem, um programa de transferência de renda é um programa absolutamente justificado. A crítica que faziam ao Bolsa Família é que ele não tinha portas de saída, como se você pudesse ter portas de saída com o Brasil não crescendo. O que é portas de saída no Brasil? Geração de emprego, capacitação para o trabalho, educação, escola técnica. Acontece que um programa, quando você tem uma parcela tão grande da nossa população na linha de miséria, você não pode falar “ó, espera daqui a cinco anos, seis anos ou dez anos, que quando o país crescer, você resolve o seu problema.” A pessoa precisa almoçar, tomar café-da-manhã e jantar. A mãe precisa dar comida pro filho. Então, o Bolsa Família é uma coisa muito simples, é um cinturão de proteção, para as pessoas e as famílias mais frágeis, que precisam de ser tratadas hoje, e não amanhã. A gente até acha que tinha que dar mais dinheiro pro Bolsa Família, nós não temos ainda como dar mais dinheiro, mas nós temos de ter clareza que a porta de saída do Bolsa Família é o crescimento da economia brasileira, é a geração de emprego, os nossos 12 milhões vão ajudar a ter porta de saída para o Bolsa Família. O pessoal da construção civil fez um programa conosco muito importante, que chama... tem um nome horrível, Planseq, já me disseram, esse nome não quer dizer nada com nada, está certo, não quer mesmo, um nome que não é bom, mas ele tem uma excelente idéia, que é a seguinte: você pega o Bolsa Família, o pessoal, a família do Bolsa Família e fala “quem quer”, obviamente que é voluntário, você não pode obrigar ninguém a fazer isso, “se você quer uma especialidade, se você quer se formar em azulegista, se você quer ser um eletricista, se você quer ser uma pessoa para fazer uma solda, nós vamos dar um curso assim, assim”, e garantimos o curso para ele. Nós juntamos ao Bolsa Família o Projovem, com isso, você tenta fazer o jovem, através de um incentivo, a voltar aos bancos escolares. Quer ver uma coisa que eu acho importantíssima, vou dar um exemplo concreto aqui em Pernambuco. Em Pernambuco tinha uma cidade que chamava Ipojuca, cheia de gente que era cortador de cana. Cortador de cana. Uma parte do pessoal cortador de cana, das famílias, era usuária do Bolsa Família. Ao lado de Ipojuca implantou-se um estaleiro, esse estaleiro chama-se Atlântico Sul. Nesse estaleiro, que aconteceu nele, nós voltamos a construir navio, porque nós definimos que a Petrobras tinha que voltar a comprar navio aqui dentro do Brasil, navio, plataforma, você pode olhar pelos dados do BNDES qual é o segmento industrial que mais cresce no Brasil, é petróleo, gás e petroquímica. Que que aconteceu com esse estaleiro? Ele tinha de ter mão-de-obra, certo? A Petrobras estava implantando ali do lado uma refinaria chamada Abreu e Lima, então eu perguntei pro pessoal do estaleiro Atlântico Sul, porque eles tinham uma planta de treinamento de trabalhadores? “Por quê? Porque aqui tem uma concorrência enorme por mão de obra. Nós estamos formando as pessoas que eram cortadoras de cana, nós estamos formando soldadores, eletricistas, pessoas que dirigem patrola. Por que nós estamos fazendo isso? Porque aqui vai faltar mão-de-obra”. E aí, outro dia no jornal, vocês estão lembrados, saiu acho uma semana atrás, nós estávamos trazendo decasséguis de volta. Por que nós estamos trazendo decasséguis de volta? Porque está faltando mão-de-obra especializada nesse país. Ninguém fica impunemente o tanto de tempo que o nosso país ficou sem investir em educação profissionalizante. Mas é bom que os decasséguis voltem, tem decasségui com 20 anos de experiência, que hoje vem para cá e vira chefe, mas é bom, ele vai trazer a experiência dele, vai passar para os outros trabalhadores. Mas o que eu acho é que a gente tem que ter consciência de que política social ela está casada com política econômica. Está casada com crescimento industrial. Esse país tem essa parelha, crescimento econômico e distribuição de renda, é um casamento. Então, falar que nós fazemos bolsa esmola, como falavam antes, e depois que a ONU reconheceu como o melhor programa de renda do mundo, pararam de falar.

O POVO – Ministra, a senhora falou no seu discurso lá no almoço em olhar nordestino, como sendo isso uma virtude desse governo. Minha pergunta é em que medida a senhora diria que é preciso uma política nacional, que dê para cada região o papel de protagonista. Quando a senhora fala em olhar nordestino, me remete a uma certa, digamos, a um certo carinho especial.

DILMA – Não é esse o sentido.

O POVO – Então eu gostaria que a senhora explicasse.

DILMA – É também, mas não é só isso.


O POVO – Na União Européia fizeram isso, uma política de compensação...

DILMA – Que está dando errado, né.


O POVO – Como é que a senhora imagina isso para o Brasil?

DILMA – Bom, a União Européia hoje não é um bom exemplo, porque, logo depois que ocorreu os PIGS, os chamados PIGS, Portugal, Irlanda, Grécia e, não, aí tem que gente que bota outros países, mas isso não vem ao caso. O que é uma política regional? É planejamento regional para o Brasil. Planejamento regional para o Brasil não é que o Nordeste tem de passar por todas as fases que São Paulo passou para chegar a ser um dos Estados mais desenvolvidos do Brasil. O Nordeste, olhar para o Nordeste, é combinar algumas coisas, é você perceber que aqui você tem uma dinâmica que vai ter de ser estimulada a partir do fato de que nós vamos ter de relocalizar um conjunto de ramos produtivos que estavam fora daqui. Não tem porque o Nordeste não ter petroquímico, não tem porque o Nordeste não se beneficiar, mesmo que ele não tenha petróleo na quantidade que tem em outros Estados do País, não se beneficiar do boom da indústria do petróleo e gás, tem de relocalizar, tem de botar estaleiro, acho que essa é uma questão importantíssima, tem de botar refinaria, tem que ter siderúrgica, você tem que ter as chamadas indústrias pesadas, tradicionais, que sempre puxaram emprego. Agora, o Nordeste tem uma característica que é esse novo olhar nordestino. Eu dou muita importância para o que eu vi hoje nesse seminário do O POVO que é o problema do empreendedorismo. Eu estou convencida que certos arranjos produtivos locais, certas cadeias produtivas que você encontra aqui, extremamente competitivas no ramo do vestuário. Em várias regiões nordestinas elas são padrões de desenvolvimento que nós queremos para o Brasil.


O POVO – Essa idéia faz parte do Projeto Nordeste do Mangabeira Unger?

DILMA – Faz parte do Projeto do Nordeste a partir do desenvolvimento do Projeto do Nordeste. Porque isso é que nós chamamos de um olhar... É porque eu coordenei com ele esse projeto. Significa o seguinte, que você não pode deixar de perceber que essa questão da liderança empreendedora não é uma questão que se resolve pura e simplesmente trazendo grandes indústrias produtivas. Eu acho que tem de trazer para cá. Acho que aqui tem de ter uma estrutura pesada, agora acho que o olhar nordestino para o Nordeste é aprender com a própria experiência e gerada aqui de sobrevivência de ramos inteiros, das indústrias, chamadas indústrias tradicionais, vestuário, calçado, que passam a ter possibilidade de gerar receita, não é inovação só no sentido de que eu inovei em produto, eu inovei o processo. Aqui tem inovações de processo, em que você distribui a produção por vários pequenos, você trabalha em conjunto, foi tudo gerado aqui de forma espontânea. Se nós não pegarmos essa experiência, não olharmos ela, não percebermos que ela é importante para várias outras regiões do País, porque, veja bem, eu vou te falar de um Estado que eu conheço bem, que é o Rio Grande do Sul. O Rio Grande do Sul tem uma metade sul que é mais decadente ou foi mais decadente que qualquer região aqui do Nordeste, tem vários Nordestes dentro do Brasil. E tem segmentos do Nordeste que são modernizantes, que a gente tem de aprender com eles. Então, isso serve, no caso do Rio Grande do Sul, na metade sul, né, o grande problema é que essas iniciativas locais não ocorreram dessa forma, ao contrário, por exemplo, da Serra de Caxias que tem uma quantidade imensa de pequenas e médias empresas de autopeças. Então aqui, eu te digo, olhar nordestino para o Brasil é pegar o Nordeste e fazer com que o Nordeste seja paradigma para o Brasil. Aqui tem muita coisa que nós podemos aprender. E eu acho que é mérito do Mangabeira ter levantado isso, ter reconhecido isso.

O POVO – Mas isso não saiu do papel no governo Lula ainda.

DILMA – Olha, eu vou falar uma coisa para vocês, nós, se você pegar a política do BNDES e do Banco do Brasil, para a questão do crédito, saiu sim. Nós agora vamos fazer são os passos seguintes. Você não consegue fazer tudo em quatro anos. Primeiro nós pegamos o país quebrado, 2003, quebradinho da silva, vamos lembrar disso. Pegamos o Brasil devendo pro Fundo Monetário, com 14 bilhões em caixa. A inflação com 12%, a taxa de juros nas alturas. E tivemos de consertar a casa, e aí consertamos a casa. Começamos a criar os programas sociais, nós tivemos a grande aceleração do nosso governo, foi um governo muito prudente, foi com o Programa de Aceleração do Crescimento, que nós botamos os investimentos na ordem do dia e soltamos dinheiro para as prefeituras, você pode chamar qualquer prefeitura do Brasil e perguntar “selecionaram por partido, por vínculos partidários?” Nãnãnanana. “Selecionaram os Estados por vínculos partidários?” Nós distribuímos dinheiro para quem tinha projeto, e quem tinha, e priorizamos a população.


O POVO – E o ritmo do PAC, que é sempre uma questão colocada.

DILMA – Vocês viram o último dado do Contas Abertas? O Contas Abertas, absolutamente insuspeito (ironia). O que o Contas Abertas está dizendo é o seguinte: acelerou-se o PAC. Em 2007, 2008 e 2009, somados, somados os três trimestres deu R$ 3,6 bilhões de desembolso de Orçamento Geral da União. Em 2010, nos três primeiros meses, deu R$ 3,9 bilhões.


O POVO – Mas isso é efeito campanha?

DILMA – Sabe porque, eu vou explicar para você, é impossível, não sei se vocês têm noção, é impossível um gasto efeito campanha, efeito campanha você gasta migalha. Obra desse porte demanda planejamento, você não faz uma Transnordestina... Hoje eu encontrei aqui um representante do investidor, que é do grupo da CSN, nós passamos o tempo inteiro, eu olho para ele, brinco com ele, ele brinca comigo, porque nós passamos o tempo inteiro eu falando “Tufi, essa obra está parada”, “Tufi, essa obra não andou”, e ele provando para mim que a obra está andando. Eu falei hoje na entrevista à imprensa o seguinte: vai ser a maior indústria de dormentes, primeiro eu falei do Brasil, depois eu falei América Latina, ele saiu correndo e disse “É do mundo”. É do mundo, mas é verdade. O esforço para fazer não é um esforço só do governo federal, nós não construímos um quilômetro de estrada, um quilômetro de ferrovia, um megawatt de hidrelétrica, não construímos um metro linear de tubulação de saneamento. Nós demandamos o setor privado. No Brasil, tinha muito entrave para fazer. Sabe qual é a maior característica do PAC, ele não só, ele não é só Orçamento Geral da União. Nenhum país do mundo fez obra de infraestrutura baseado no Orçamento Geral da União, não, sabe por que, porque não faz, é a combinação de Orçamento Geral da União mais crédito. E nós tiramos o crédito de 380 bilhões para 1,4 trilhão. E isso não é da iniciativa privada, isso é dinheiro que o governo federal colocou à disposição. Era assim, uma questão de prêmio quem tivesse acesso ao crédito de longo prazo no Brasil.

O POVO – Era loteria...

DILMA – Era loteria. Sabe qual era o maior horizonte de crédito no Brasil, cinco anos. Quando chegava a dez, era considerado crédito de longo prazo. Nós estamos financiando 20 anos. Não existe obra de infraestrutura, gente, sem financiamento de longo prazo. O PAC é isso. Nós mudamos, você pega qualquer empresário que faz PAC, pergunta se nós não mudamos a forma de fazer investimento no Brasil. Nós baixamos juros, aumentamos prazo, conseguimos viabilizar um... Financiavam o que? Financiavam sabe quanto, 55% da obra. No resto do mundo, chegavam a financiar 100%. Nós não vamos fazer isso, nós financiamos 70/30. 70 é dinheiro que nós colocamos e 30 é capital próprio, agora pergunto para você, esse dinheiro é de quem, hein? É da União, é os 100 bilhões que nós, apesar das críticas todas da oposição, botamos no BNDES. Nós botamos 100 bilhões no BNDES para fazer o que, para fazer de longo prazo. Quem é que faz investimento de longo prazo no Brasil, quem é o banco que financia, é privado? Não. Agora vai ter de ser, um dos desafios daqui para frente é que só o BNDES não segura tudo o que nós vamos precisar de dinheiro, nós vamos precisar de mercado de capital, vamos precisar de banco privado, vamos precisar de fundo de pensão, vamos precisar de melhorar uma coisa que no crédito se chama as garantias, então, é um baita esforço que o Brasil fez, mas eu te asseguro, hoje nós somos 100 mil vezes melhor do que éramos. Quem vier depois do governo Lula pega um país arrumado para crescer, na boca ali.


O POVO – Deixa eu trazer essa questão para o Nordeste especificamente. O BNB está tentando aumentar o patrimônio dele para poder emprestar mais, ele chegou ao limite do acordo de Basiléia, é algo que trava o Nordeste.

DILMA – Nós respeitamos o acordo de Basiléia. Agora, posso falar uma coisa, o Nordeste não tem que ser só financiado pelo Banco do Nordeste.


O POVO – Mas o BNDES aqui ainda não é tão forte quanto o BNB, o BNB aqui é o que sustenta...

DILMA – Ah, é, então quem é que está fazendo a Transnordestina? Finor, FNDE e BNDES. Quem é que está fazendo o Gasene? A Petrobras, o BNDES e a União. Quem é que está fazendo, vou te dizer mais uma, transposição de bacia?

O POVO – Ok. Mas o BNB tem um papel muito importante, quer dizer...

DILMA – Mas ele não é o principal instrumento de crédito para o Nordeste.

O POVO – Mas na hora que ele trava, na hora que ele chega ao limite dele, é sinal que tem...

DILMA – Ninguém vai transpor o limite da Basiléia. Aí é Lei de Responsabilidade Fiscal.

O POVO – Isso passa pelo Congresso, passa pelo esforço do Congresso.

DILMA – Mais do que isso. Passa pelo fato da gente ter, em relação a questão bancária, a gente tem de ter padrões e critérios de, vamos dizer assim, de robustez. É uma temeridade hoje alguém propor ruptura...


O POVO – Eu não falo romper, eu falo ampliar o capital...

DILMA – Mas aí é um acordo internacional, não é um acordo do Brasil. Isso o Banco Central não pode autorizar.


O POVO – Por que não passa no Congresso o aumento do capital do banco?

DILMA – Não, isso é outra coisa, nós somos a favor de aumentar o capital do banco, porque não tem nada a ver com Basiléia, é o governo que é sócio, é só pegar dinheiro e colocar lá. Eles não autorizaram. Mas tentaremos outra vez. Por que eles não autorizaram? Porque eles vêem no banco um instrumento de política correta do governo, agora com o BNDES tem tanto direito, as empresas do Nordeste têm tanto direito ao BNDES, e os juros do BNDES está muito bom, ou seja, elas podem pegar e tal. Agora, eu acho que o BNB tem que ser capitalizado, se é isso o que você está falando. A União propôs, quando propôs a capitalização do BNB, o aumento do recurso do BNB para aumentar a capacidade dele para emprestar, ela vê no BNB uma outra questão, ela vê no BNB um instrumento de fomento da pequena e da média indústria aqui. O BNB não precisa de emprestar para grande empresa, grande empresa pode pegar isso lá embaixo, que ela tem poder de fogo. Para quem o BNB tem que emprestar, é para a pequena e média empresa daqui. Aí o governo tinha todo o interesse de fazer isso, para fazer isso não precisa de romper nenhum requisito da Basiléia, dá para fazer tranquilamente, não fomos bem sucedidos, isso não implica... Quando eu disse hoje que eu achava que tem de ter um tratamento especial para pequena e micro é isso, e por região, o BNB tem que ser o instrumento desta política do Nordeste inovador, o instrumento. O Sebrae vai ter de ser também.


O POVO – O presidente Lula em 2003, logo que assumiu o governo, lançou uma nova Sudene. A senhora diria que a Sudene que está aí hoje a satisfaz?

DILMA – Eu acho que ainda ela não incorpou totalmente, mas ela está fazendo algumas coisas importantíssimas. Sem a Sudene, que controla alguns fundos, nós não tínhamos feito a Transnordestina. O dinheiro básico da Transnordestina, que a última parcela foi de R$ 1,6 bilhão, vem daí, quem administra esse R$ 1,6 bilhão é a Sudene. Óbvio que porque é a Transnordestina, como ela é um empreendimento caro, ela pegou um pedaço dos recursos expressivamente, agora nós estamos em outro ciclo. Esses recursos vão expandir, outros projetos vão entrar na pauta, e aí você vai ter que combinar... Por isso que te falo, não pode deixar tudo nas costas do BNB, porque senão ele não faz a política de fomento para o pequeno. Então, o que for grande aqui tem que ser BNDES, o que for grande, o que for obras de R$ 6 bilhões, R$ 5 bilhões, R$ 3 bilhões.


O POVO – Mas a Sudene deve assumir outros papéis, como a questão do planejamento?

DILMA – Terá. Terá. E o BNB, quando a gente estava discutindo o Plano Nordeste, o que nós estávamos discutindo, que o BNB tem mais quadros, tem mais estrutura que a Sudene, então que tinha que combinar a Sudene com o BNB para fazer o planejamento da região, para pensar a região como um todo, e não ela partida, e que seria através do BNB e da Sudene, inclusive o Smith sempre esteve à frente dessa discussão, sempre foi feita entre o pessoal da Sudene e com o Smith. Dessa conversa, nós ficamos com a consciência clara, que esses instrumentos de planejamento, de financiamento e de gestão tinham de ser integrados. Você para fazer desenvolvimento aqui, com pequenos e médios empreendimentos, terá de unificar a Sudene, a ação da Sudene, com o BNB, com o Sebrae e terá também de ter uma presença clara dos distintos governos estaduais como eixo de planejamento. Você não pode fazer um planejamento do governo federal com as costas voltadas para os governos estaduais. Eles são elementos cruciais da constituição do ente planejador. Então, a Secretaria de Planejamento e os órgãos locais de planejamento eles têm de estar integrados numa rede que pense a região.


O POVO – E isso seria coordenado pela Sudene?

DILMA – Isso seria coordenado pela Sudene, a idéia era essa, ta? Esse é um projeto que nós temos de futuro, especificamente para aqui.


O POVO – A senhora falou que quem vier depois do governo Lula vai encontrar um governo muito arrumado, pronto para os saltos necessários. A oposição tem dito o contrário, que há uma situação preocupante, inclusive em relação a qualidade dos gastos, que há um aumento nos gastos públicos. Como a senhora responde a essa crítica da oposição? O governo de fato, em decorrência de um interesse eleitoral, está meio que relaxando com as contas públicas?

DILMA – Olha, se tem um governo que não praticou nem pratica demagogia, somos nós. Quando a gente tem que falar não, a gente fala não com todos... não tem efes e erres no não, mas é com todos os efes e erres. O que acontece nessa questão de nos acusar de inflar gastos de custeio. Eu acho que primeiro, hoje, nós somos o menor déficit primário e nominal, um dos menores do mundo, ao que eu saiba a oposição não fala isso, não. Nós somos menores de acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), com o Fundo Monetário, em todos os órgãos, nós somos um dos menores, enquanto os países da OCDE estão em torno de 15%, 12%, 10% na melhor hipótese, nós estamos ali em torno dos 2%, 3%. O que nós fizemos, esse déficit aumentou por conta da crise. Por que nós saltamos – nós íamos chegar a 1,8%? Por que nós aumentamos? Nós aumentamos os gastos no ano de crise, nós fizemos um gasto que se chama contracíclico. Gasto contracíclico é aquele gasto que impede o ciclo que é de depressão de continuar. Nós preservamos empregos, nós investimos pesado. Por exemplo, as prefeituras perderam... nós demos isenção de IPI, de PIS/Cofins, as prefeituras perderam dinheiro do fundo de participação. O governo foi lá, para não ter uma crise nas prefeituras, e deu o mesmo valor, bancou o mesmo valor que elas tinham em 2008. Então nós tivemos muito cuidado esse ano com a questão do gasto público. Foi contracíclico anticrise. Ao contrário dos governos da oposição, que aprofundavam a crise, porque o estado falia, o nosso não só não faliu, como nós saímos mais fortes da crise do que entramos. A gente tinha em torno de uns 205 bilhões de dólares de reservas, fomos para 243, último dado, deve ter aumentado um pouquinho mais, último dado oficial que eu tenho é de 243 bilhões de dólares. Bom, mas não foi isso que a oposição queixa. A oposição fala muito em saúde, fala muito em educação, fala muito em segurança pública. Eu quero saber qual é a mágica que um governo pode fazer para aumentar e expandir o ensino profissional nesse país sem contratar professor. Quero saber qual é a mágica que nós podemos fazer para expandir as unidades de pronto-atendimento na área de saúde, de 24 horas, aumentar o Saúde da Família, criar o Samu, fazer tudo o que nós temos de fazer e ainda está faltando muito o que fazer na área da saúde, sem contratar médicos, enfermeiros e agentes de saúde? Quero entender como é que a gente reaparelha a Polícia Federal, porque a Polícia Federal é governo federal, reaparelha a Polícia Federal, dá condições aos profissionais da Polícia Federal para trabalhar, sem contratar delegados, inspetores da Polícia Federal? Então, o governo reaparelhou o estado sim, nós reaparelhamos, não no sentido de aparelhamento de uso, é nós reconstruímos as condições de prestação de serviço do estado brasileiro. Eu quero contar um episódio para vocês: eu era ministra de Minas e Energia escolhida pelo presidente. O Ministério de Minas e Energia só controla, é um anão deste tamanhozinho controlando um gigante chamado Petrobras, outro gigante chamado Eletrobrás. Fora outras coisas. Mas é isso que ele faz. Sabe quantos engenheiros tinha dentro do Ministério? Cinco. Sabe quantos motoristas tinha dentro do Ministério? Uns 30. Então, nós vivíamos num país que tinha reduzido o estado a uma insignificância tal e vendia uma história para todo mundo de que nós não podíamos planejar, porque planejar é estatizante. A Esso planeja, a Shell planeja, a Epson planeja, todas as grandes empresas fazem uma coisa chamada planejamento estratégico. Hoje, as pequenas e médias, as empresas todas fazem planejamento. Aí você me diz o seguinte: se você não planejar, como é que você vai fazer a integração dos modais do transporte do Brasil? Como é que você vai fazer, como é que você vai pensar energia elétrica? Hoje, se você não planejar energia elétrica com dez anos, depois cinco, para saber se vai ter energia suficiente daqui a cinco, daqui a dez, você não tem. Porque um projeto leva cinco anos, no mínimo, para amadurecer. Você, se não acompanhar de dois, tudo o que vai acontecer no Brasil de dois em dois anos, na área de energia elétrica, falta energia. Aí falam lá “ah, mas teve apagão”. Que apagão? O que houve no Brasil foi blecaute, apagão é igual a racionamento de luz, é aquele negócio que você corta a luz e fica com ela racionada durante oito meses. Não tem isso no Brasil, não, porque está sobrando energia no Brasil. Então, eu te pergunto o seguinte, por que o Nordeste por fazer energia eólica, quem é que compra? Compra a política de geração de energia do governo federal, que chega e fala “vamos comprar energia eólica”. E mais, acabou com a brincadeira de tornar todo mundo igual, porque não é. Onde tem a melhor energia eólica? Resposta: Rio Grande do Norte e Ceará. Não tem tão boa no resto do país. Então eu tenho que contratar o que for melhor para o Brasil. Inventaram uma lei, nós ficamos durante muito tempo amarrados a ela, agora passou, que a gente só podia contratar se fosse nacional, e ao mesmo tempo não podia contratar naquelas regiões que tinham maior produtividade. Então, tudo isso no Brasil nós mudamos isso, nós alteramos isso. Então, eu quero dizer pra vocês: eu acredito que nós recompusemos sim o custeio, nós aumentamos o custeio. Mas nós aumentamos o custeio no lugar que é custeio. Tem jeito de eu fazer saúde sem médico? Não. Tem jeito de eu fazer educação sem professor? Não. Tem jeito de eu melhorar saúde e educação com salário de fome dos professores? Não.


O POVO – Mas isso respeitando a capacidade financeira do governo?

DILMA – Meu querido, vou te repetir, olha só, veja bem, nós temos o menor déficit, nós chegamos ao ponto de fazer uma poupança no fundo soberano, porque em 2008 sobrou dinheiro, nós pegamos dinheiro e ta, criamos um fundo soberano e o Brasil tem uma poupança fiscal. No dia que ele quiser, pode usar. Por que esquecem isso?


O POVO – Tem um outro aspecto que a oposição já toca bastante é sobre a sua experiência num cargo eletivo. A senhora tem um vasto currículo em administrações públicas, mas não numa posição protagonista. E numa campanha diz-se que isso é fundamental, ter experiência de palanque...

DILMA – A ver, né. Isso ainda está para ser provado.


O POVO – Além disso tem um outro aspecto, já que a senhora é mulher e o Brasil nunca teve uma presidente.

DILMA – Mas o Brasil tem tanta coisa hoje... Está aqui o Ceará, que é um exemplo para mim.


O POVO – Pois é, como é que a senhora está se preparando para a campanha, já que, em vários momentos pegam pedaços do discurso da senhora e já estão falando, ah, é gafe. Como a senhora vai se portar, deve cair para o emocional?

DILMA – Não é necessário cair para o emocional, além do fato de que cada um de nós tem que ter paixão, coração, sensibilidade. Mas não é necessário, não é por aí a questão. A questão é a seguinte: a troco de que se acha que é gafe ir no túmulo do Tancredo? Por que? Eu, cada vez que falam isso, eu acho o seguinte, acho que faz parte da disputa política tentar colar no adversário, né, algumas coisas, agora.


O POVO – Esse episódio dos exilados...

DILMA – No episódio dos exilados, eles distorceram o que eu falei, é uma vilania o que estão fazendo. Eu inclusive queria ler para ti, vou ler outra vez, sabe por que eu leio? Porque eu gosto que as pessoas vejam o que elas estão distorcendo. Eu não estou falando... Eu vou ler para vocês. Eu estava falando o seguinte, eu venho aqui para as pessoas me conhecerem e quero dizer para vocês o que eu não faço, o que vocês nunca esperem de mim, porque eu não faço. Aí elenquei várias coisas que eu não faço: eu não entrego o meu país, eu não vou privatizar patrimônio público, vocês não esperem de mim repressão aos movimentos sociais, que eu não farei, eu sou a favor do diálogo etc. etc., a horas tantas, eu digo o seguinte: “eu não fujo da situação quando ela fica difícil, não fujo. Eu não tenho medo da luta, eu posso apanhar, sofrer, ser maltratada, como já fui, mas eu estou sempre firme com as minhas convicções. Em cada época da minha vida, eu fiz o que fiz porque acreditei no que fazia, fiz com o coração, com a minha alma e com a minha paixão, eu só mudei quando o Brasil mudou, eu nunca fugi da luta ou me submeti, e, sobretudo, nunca abandonei o barco.” Onde tem exilado aqui? Outra coisa, você lembra daquela discussão do Senado, eu e o José Agripino? O José Agripino pega um depoimento meu no qual eu dizia “na tortura, a gente tem de mentir. E mentir muito, e é muito difícil. Porque, porque você fala tortura, tudo o que eles querem na tortura é obter a sua verdade, e é tudo o que você não pode entregar, e essa é uma briga muito difícil, porque todo mundo tem medo. Acreditar que alguém não tenha medo é um absurdo, cada um de nós é igualzinho, dói, todo mundo tem medo, ninguém sabe... Eu até lembro da cadeia que tinha uma frase que eu achava muito bonita que era do Brecht, “feliz o povo que não precisa de heróis”, mas nós, né, aos 19 anos, ou 20, 21, tínhamos de ser um pouco. Então, você tinha que mentir, era sua grande arma contra eles. Então o Zé Agripino, no alto do seu compromisso com outros interesses, né, ele foi um grande líder político dentro... naquele período da ditadura militar, me cobra que eu não falo a verdade naquele momento. Eu falei “olha, na democracia a gente fala, democracia tem liberdade de expressão, não prendem jornalista, tem liberdade de imprensa, tem debate livre, é diferente da ditadura”. Então, há que entender o seguinte: na vida, você tem fugas e fugas. Durante a ditadura, eu fugi para a clandestinidade. Sabe por que eu fugi para a clandestinidade? Ou eu ficava clandestina, ou eu podia morrer, ou ia ser torturada, então ir para a clandestinidade era meu recurso de sobrevivência, não fui para a clandestinidade porque eu quis ou porque eu achava bonito viver longe da minha família, sem meus pais, aliás, meu pai estava morto, sem minha mãe, sem meus amigos. Fui para a clandestinidade num esquema de sobrevivência. Aí o Brasil foi fechando. As pessoas foram para o exílio por questão de sobrevivência. É uma deliberada adulteração de uma fala. Não fugi da luta, só aqueles que não viveram a ditadura podem falar isso de exilado ou de clandestino. Da mesma forma, só aqueles que não passaram por isso podem falar que diante da tortura você fala a verdade.


O POVO – Mas nitidamente vão usar toda essa sua história de vida.

DILMA – Com certeza, mas já estão fazendo isso.


O POVO – Mas o candidato José Serra (PSDB) já disse que está proibido tocar nesse assunto porque acha que seria desonesto. Mas tem os outros partidos, o PPS já falou, soltou até nota de repúdio...

DILMA – Mas sabe o que é, meu querido, chama-se a mão do gato, né, aquele negócio, pegar as castanhas com a mão do gato, queima a mão do gato. Não é correto isso.


O POVO – Então a senhora acha que não é sincera a atitude do candidato Serra?

DILMA – Não, não, não estou dizendo isso. Estou falando o seguinte...


O POVO – Quem é o gato?

DILMA – É a oposição. A oposição está fazendo isso deliberadamente, ela inventou essa história. Inventou como, naquele momento, ele inventou a questão da verdade.


O POVO – A senhora acha que a imprensa está sendo, pelo menos os veículos...

DILMA – Olha, eu acabei de agradecer ao Noblat. O Noblat hoje no seu blog, se você ler o blog do Noblat, ele reconhece. Porque eu mandei pro Noblat sabe o quê? A fita. A fala.


O POVO – Mas a íntegra já estava disponível desde cedo, né?

DILMA – Bom, se alguém não viu, agora passou a ver. Então, eu concordo contigo, a íntegra podia estar disponível, mas vá que a pessoa não viu, né?


O POVO – A senhora acha que precisa de um treinamento para falar?

DILMA – Posso te falar uma coisa? Você sabe, eu acho que tem uma tentativa de fazer com que eu não viaje, não abra a minha boca, não fale, não seja conhecida. Não vou me impressionar só por causa... Não, escuta, você acredita sinceramente que... eu tenho 62 anos de vida. Eu já fiz muita coisa. Você acredita, sinceramente, que o que eu falo é teleguiado, é porque eu não acredito? Só tem um jeito de eu comunicar com o eleitor, eu acredito no que eu falo.


O POVO – Mas o presidente Lula só conseguiu se eleger depois que ele mudou o discurso, orientado pelo Duda Mendonça.

DILMA – Mas eu, vou te dizer uma coisa, eu tenho um mestre, e meu mestre se chama Lula. Então, cinco anos, eu aprendi com o melhor dos melhores, aliás, com o cara. Não é, aprendi com ele. Acho que fui uma aluna, vamos dizer assim, muito séria, compenetrada, e eu aprendi muito.


O POVO – Ministra, a senhora assumiu o cargo na Casa Civil num momento delicado do governo, no qual o chefe da Casa Civil era muito mais político do que gestor. A senhora levou uma tranqüilidade para a gestão do governo Lula. A senhora eleita presidente, a senhora vai precisar de um braço direito na gestão ou a senhora pretende acumular esses dois papéis?

DILMA – Ah, ninguém gere sem equipe, não. Ninguém.


O POVO – A senhora precisa de um braço direito, ter um nome forte para...

DILMA – Mais do que um braço direito, preciso de uma equipe. Posso falar uma coisa? Eu não acredito que o presidente Lula precisava de um braço forte. Nós construímos foi uma equipe. Se a versão sobre o que nós fizemos é que tinha um braço forte, está errada. Eu fiz uma coordenação de equipe. De jeito nenhum eu acredito que uma andorinha faz verão. Várias andorinhas voando concertadamente fazem um lindo verão e um céu azul lindo. Agora, é preciso que as andorinhas voem concertadamente. Isso eu acho que vou ter de ter uma equipe de muita qualidade, porque hoje nós temos uma experiência de governo que ninguém tira de nós. Não sei se você lembra, quando nós chegamos no governo diziam “que pessoal incompetente”, “esse governo não dura”, “esse governo acaba amanhã”, “ih, esse pessoal não sabe governar”. Pior não é isso, pior é que “eles nunca, só tiveram vento a favor, viveram no momento em que o Brasil e o mundo estava numa fase de expansão. Nunca pegaram uma crise pela frente”. Eles (governo FHC) pegaram a crise asiática, uma crisezinha russa, todas elas na periferia. Nós pegamos a maior crise do capitalismo depois de 1929. Nós quebramos? Nãnanananananana. O Brasil entrou num grande processo de recessão? Também não. O Brasil hoje é um dos países reconhecidamente em melhor situação? É. Então, me desculpa. As versões que fazem sobre nós, nós não acreditamos nela porque nós não somos isso, faz parte da luta política. Agora eu espero que eles mostrem o que fizeram. Hoje perguntaram para mim: “mas vocês ficaram oito anos lá e não desprivatizaram o que estava privatizado”. Ora, absurdo total. Era como se pedissem para nós... nós não achamos que um país do tamanho do nosso possa quebrar contrato, possa sair por aí rasgando contrato. Um dos fundamentos da estabilidade desse país é que nós honramos todos os contratos feitos, você não pode deixar de reconhecer que um governo é uma continuidade, nós assumimos o que o passado fez. Por isso é que temos de ter cuidado com o passado, e por isso é que o passado não é que simplesmente passou, ele perdura no presente. Nós temos uma grande sorte, tá, nós não privatizamos a Petrobras, não dividimos a Petrobras. Por que? Porque o povo não deixou, também, porque eles chegaram perto. Porque mudar o nome da Petrobras para Petrobrax, tirando dela o que era o nacional dela, o Brás, de Brasil, porque o Petro é de petróleo, o Brás que é o de Brasil, não me consta que o Brasil tenha X no nome, não me consta.


ASSESSOR INFORMA QUE O BNB REPASSOU DADOS SOBRE CONTRATAÇÃO DE CRÉDITO

Em 2002, eram R$ 1,4 bilhão (Dilma: o presidente adora dar esse dado e eu esqueci de dar), e aí pulou para R$ 25 bilhões, para este ano.

DILMA – E é isso o que nós queremos, que seja para pequenas e micro empresas regionais.


O POVO – De certa forma, a senhora falou aqui que o governo do PT sofre com alguma prática de terrorismo eleitoral.

DILMA – Muito difícil de pegar na população. Dificílimo de pegar, tanto é que, um dos argumentos, uma dos jeitos que eles estão dando é dizer que eles são continuidade do governo Lula, dizer que eles... dá no mesmo, sermos nós ou sermos eles. E não pode comparar, está proibido no Brasil comparar. Como se você pudesse entrar numa eleição como se nada tivesse acontecido até hoje, e como se eu não comparasse o Brasil com o Brasil.


O POVO – Mas não é uma prática de característica semelhante dizer que o Bolsa Família pode acabar no governo do PSDB, ou o PAC.

DILMA – Não fui eu que disse. A história do PAC que pode acabar você pode pegar, recorrer à revista Veja, vai lá, ler na revista Veja, que o presidente do partido defendia o fim do PAC e, além de defender o fim do PAC, mexer na política econômica do governo, em especial no câmbio e nos juros. Está escrito, eu não inventei. No que se refere ao Bolsa Família, é ver a campanha que fizeram em 2006 contra nós em cima do Bolsa Família, que era o bolsa esmola, e que o Bolsa Família era eleitoreiro. Só mudou isso um pouco quando, eu vou repetir, quando o Bolsa Família foi considerado um dos melhores programas de distribuição de renda, só. E foi considerado isso por órgãos internacionais.


O POVO – A senhora, aqui no Ceará, não tem como não falar do Ciro.

DILMA – É uma pessoa que eu gosto muito, tenho o maior prazer de falar dele.


O POVO – A senhora tem sido bastante diplomática quanto a ele, mas ele tem sido mais agressivo em relação ao PT já faz algum tempo. A senhora teria medo da boca do Ciro durante a campanha?

DILMA – Não, não. Eu vou te dizer uma coisa, eu, em relação ao Ciro, e eu repito isso não é hoje, não, há muito tempo, eu tenho pelo Ciro admiração, respeito e amizade. E essa relação foi criada e se estreitou num momento difícil do governo. Eu cheguei na Casa Civil em 2005, e, naquele período, até o final do primeiro governo do presidente Lula, eu encontrei o Ciro sistematicamente todos os dias às oito horas da manhã, e com ele discutia como é que era o nosso encaminhamento diante de toda a crise política que estava passando, vocês têm conhecimento dela. E eu tenho respeito pelo Ciro, eu considero o Ciro um homem de caráter, uma pessoa que mantém todas as credenciais para pleitear o que ele quiser ser, eu, da minha parte, você jamais terá, em hipótese alguma, ocorra o que ocorrer, uma crítica ao Ciro. Porque tem certas coisas que você não esquece.


O POVO – Mas atrapalha a candidatura dele contra a sua?

DILMA – Para mim, eu sempre acreditarei que eu e o Ciro, no futuro, estaremos sempre do mesmo lado. E eu vou repetir para ti: ele tem direito de querer ser candidato. E além disso, quero te dizer, eu gosto muito dele.


O POVO – A senhora tocou num outro ponto que tem sido polêmico aqui, que é o estaleiro. Aqui tem uma discussão em que apóia-se a vinda do estaleiro, mas discute-se o local, que gerou polêmica. Não sei se a senhora tem conhecimento.

DILMA – Não, porque nós não interferimos nisso. A única coisa que a gente quer é a área. Inclusive a única coisa que a gente quer é a área, até porque não seremos nós que vamos construir o estaleiro. Da refinaria também, se quiser mudar a área, não tem problema. A única coisa que tem de indicar é que área que é. Nós não escolhemos área, não interferimos na política local. Até porque não tem cabimento, é uma coisa que não está na nossa área de manobra, aí vem um estaleiro para cá, vem o governo federal, bota o bedelho, dá palpite, sem ser chamado, e além de ser sem ser chamado, sobre uma realidade que ele não conhece perfeitamente. Então, nós não fazemos isso.

O POVO – Mas a senhora não é mais governo, agora a senhora é uma cidadã.

DILMA – Até duas semanas atrás eu era governo, você sabe daquele ditado, que cachimbo que toca a boca, às vezes a minha boca entorta.